em Venezia perdido no tempo...
Veneza, Out. 2005
Convocação
Dedicado ao Tio Alberto Sampaio, um homem sem cabresto.
O solitário da noite lhe diz: larga teu marido mulher, vamos fazer um filho de nome Alberto que seja a cara da Gameleira.
O andarilho das "istrada" lhe cobra uma decisão: larga teu marido "muié" e "vamo" bater precata nesse mundo afora, correndo chão, fazendo uma cria de nome Nana.
O quiromante enxerga mudanças na tua vida mulher: vem ficar mais eu. Você tem corpo prá mais de uma cria e o pai sou eu, seu mago, encantador de serpentes.
O homem vê na sua musculatura a mulher que pode ter entre seus braços e assim sendo faz enfático essa convocação: vem amar como eu
Andar no nosso jeep willys ainda novo, com pedras rolando goela abaixo, correndo sem capota, cabelos ao vento, até chocar-se com uma mungubeira gigante em plena rua grande
E nossas crias morrerem
De rir.
Londres, primavera de 1979.
DAS MARGENS DO SÃO FRANCISCO PARA AS MARGENS DO TÂMISA.
Londres, Nov. 1978
Tava gramando um trampo em Camaçari sem sossego. Um dia, de noite, no apartamento do Jardim Brasil na Barra Avenida a gata me tocou: Pretinho recebi um postal do meu irmão que mora em Londres. Bateu nos olhos aquela imagem do postal e gravou no fundo da memória. Rolou em mim aquela vontade de partir, novos ventos, nova vida, nova consciência.
Nasci em Salvador, no Hospital Português, registrado no Distrito da Sé, mas fui criado na cidade de Xique-Xique, as margens do São Francisco. Desde cedo aprendi a nadar e sou daqueles que não pode ver um rio, um riacho, água, que tenho logo vontade de ficar pelado e pular dentro. Meu lance desde cedo foi me preparar para correr mundo. E assim me fiz, andarilho no ermo da solidão das terras desconhecidas.
Naquela noite, preparamos os panos de bunda e arribamos para a Ilha de Itaparica, precisamente Taipoca, uma casinha alugada perto das lagoas. No caminho, colhemos uns cogus e chegamos por lá quase noitinha. Fomos direto para a Lagoa, que delicia, aquela água maravilhosa e aquela lua cheia, nossos corpos, nossas carícias, nada a fazer e tudo a rolar.
Daí nos recolhemos a casinha. Botei água no fogo para fazer o chá. Carburamos e ficamos alí naquele festival de toques.... Sorvemos o chá batendo aquela onda gostosa e pueril. Daí fomos prá beira da praia, curtir a lua cheia e na nossa frente, Salvador. Estávamos sentados em posição yogue e de repente, ao fechar os olhos e abrir repentinamente, no outro lado, me aparece não mais Salvador, mas sim LONNNDRESSS em toda sua exuberância, com o Big Ben e as Casas do Parlamento iluminadas refletindo sobre o Tãmisa. Bateu de vez, tenho que zarpar. É só um lance de tempo, questão de planejamento. O Plano.
Fiquei por segundos curtindo aquela paisagem com minha cabeça desabutinada... meu mundo virou e foi com se eu já estive predestinado a partir. É gata temos que partir, os avisos estão chegando e são muito fortes.
Tempo no plano. Plano é plano. A gata resolveu sartar fora. Sofri. Nunca pensei que fosse sofrer tanto, mas mantive o plano como se nada estivesse acontecido. Marque uma data, marque uma fecha. Plano, determinação. Movimento no tempo para reunir as condições. A data foi chegando, tava na hora de pisar.
O pássaro de aço arribou. Fez a conexão no Rio de Janeiro e voou direto para Londres. Amanheci na cidade de luzes amareladas que mais amo depois da Bahia. Passei pela imigração e fui direto pegar o Metro. Já no trem, ainda na superfície, fui me inteirando daquele lugar e daquelas paisagens ainda que sombrias de começo de inverno. Me acoitei em Ladbrooke Groove, bem ao pé de Portobello Road. O pequeno flat só tinha uma cama de solteiro e uma pia; o banheiro era lá fora. Um frio de rachar para quem estava acostumado a andar de "precatas". Me aconcheguei alí para descansar um pouco e apaguei; quando despertei já era noitinha, e assim mesmo resolvi sair, pois estava decidido a me jogar naquele mundaréu. Nas imediações da estação me dirigi a um Pub e fui tomando espaço. Ouvi dois tipos falando português de Portugal e resolvi me aproximar. Falei: Escuta, o que vocês estão a beber. Imediatamente recebi a resposta: Ouve lá pá, tu es brasileiro? Sim, sim, sim. – Estamos a beber um grapa portuguesa, desejas provar? - Com certeza, respondi. A bicha é mais forte do que nossa cachaça, e quando tomei a talagada, foi como meu sangue circulasse imediatamente dos pés a cabeça já em outra temperatura. Falei prá mim mesmo: tou batizado. Daí, fui bater pernas nas margens do Tâmisa na noite iluminada por luzes amarelas. Mesmo sem luvas adequadas, agüentei o frio, pois meu prazer era curtir o Tãmisa. Voltando para o pequeno flat, o ermitão, quiromante e mago, andarilho das nuvens, finalmente se instalou na cidade das fadas e gnomos.
Na Inglaterra lancei um novo paradigma, um novo slogan para minha vida: NOVA VIDA, NOVA CONSCIÊNCIA.
Tem mais...
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