SANTO INÁCIO E GAMELEIRA DO ASSURUÁ:
DOIS PARAISOS NA SOLIDÃO DA CHAPADA.
João Makiesse(*)
Na parte desconhecida, na ponta da Chapada Diamantina, no ermo da solidão das gerais, no município de Gentio do Ouro, Bahia, ficam localizadas as vilas de Santo Inácio e Gameleira do Assuruá, uma distante seis léguas da outra, verdadeiros monumentos ecológicos da natureza, bem como exemplos de auto-sustentação, tenacidade e fé de seus 500 habitantes cada.
O acesso a essas vilas foi por muito tempo difícil e quase tudo chegava lá em lombo de burro; depois foram os jipes que trafegavam praticamente por cima do lajedo, subindo a serra, de onde os viajantes podiam vislumbrar a belíssima paisagem da Lagoa da Itaparica. Adornada por pés de carnaúbas, o bolsão de água formado pelo Rio São Francisco durante a cheia, que de tão grande e espraiada mantém o espelho d’água durante todo o ano, mesmo durante a seca, com uma piscosidade incrível, fornece surubins, mantrinchãs, curimatás, pocómons e piranhas.
Santo Inácio é uma réplica em miniatura de Lençóis. Com seus veios de diamantes aparecendo quase a flor da terra, a vila foi fundada por garimpeiros oriundos de Lençóis e Palmeiras, que alcançaram o local por cima da chapada na busca de diamantes. A influência (do diamante) foi forte e a vila floresceu com rapidez. O detalhe mais incrível é o jardim da praçinha calçado com cristal de rocha, fazendo um prisma maravilhoso com os raios do sol. Na aparência, a vila não tem casas de taipa, são todas de fachada de alvenaria; é que o Intendente (prefeito nomeado) da época, baixou uma Postura em que todos os proprietários de casa foram obrigados a construir a "fachada" para dar boa impressão aos visitantes compradores de diamantes que vinham de várias partes do mundo.
Ao redor, os grandes blocos monumentais de pedras formam figuras humanas e de animais, com um equilíbrio inimaginável, como a famosa "pedra do balanço". No caminho, personagens como Sinhá Lió, no aprazível Brejinho das Goiabas. Ali se estabeleceu depois de uma grande paixão e passa seu tempo "criando filhos dos outros". Depois, a Barragem que fornece água a vila sem precisar motor, apenas por gravidade. É tanto lajedo que os canos correm na veia da terra, por cima de pedra. E finalmente o Coelho, com seu poço misterioso, cuja a profundidade nunca foi possível medir.
GAMELEIRA DO ASSURUÁ.
O viajante segue para Gameleira do Assuruá extasiado com aquela paisagem monumental. Passando pelo Riacho da Folha Larga, poético com seu oratório místico, e subindo o Corte do Andarilho; quando se pensa que a Lagoa tinha ficado para trás, o esplêndido espelho d’água se mostra novamente exuberante, contagiando de verde e água aquele imenso tabuleiro. Na subida do Sapé (corruptela de "só a pé"), jaguatiricas cruzam a estrada, desconfiadas e belas. Gameleira desponta no Curral de Pedras.
Gameleira do Assuruá, com sua constelação de serras, tem uma concentração de energia verdadeiramente fantástica. A rua principal e quase única com seu areal e suas mungubeiras gigantes, oferecem aos visitantes as visões da serra de qualquer ângulo. A magia do lugar faz com que os corpos recebam uma recarga poderosa e sana de energia, que os coloca num mundo de paz e conforto.
Estando lá, é só chamar o "nosso amigo" Verga (verga mas não quebra) para que lhe conduza a desfrutar os arredores; com certeza ele vai lhe levar a Volta, também conhecida como o Escorrega. O lugar é composto por um conjunto de corredeiras de vários Riachos no pé da serra, que só se acessa a pé ou de jipe. O conjunto de corredeiras formam vários "escorregas", poços e pequenas cachoeiras, adornados por centenários pés de buritis, palmeiras, mangabeiras, coalhadas de pássaros raros como o Pássaro Preto, o Sofrê, a Pêga, que nos proporcionam melodiosos concertos em perfeita comunhão com a natureza. O local tem estrutura para acampar e uma rígida exigência dos nativos para se manter a limpeza. Dizem que se chama a VOLTA porque aquele que vai lá uma primeira vez só fica pensando em voltar.
De lá é possível acessar outro sitio ecológico chamado "As Nuvens", de tão alto em cima da serra, apenas chegando em lombo de mula. Você ficará impressionado com os imensos campos de mangabeiras nativas.
Voltando à vila, visite as casas de farinha comunitárias e prove dos vários tipos de "beijus" que os nativos fazem, sendo os mais gostosos aqueles feitos nos fogões a lenha com chapa de pedra. Prove também um "biscoito duro" (é preciso ter dente). O prato principal da culinária local é o "Capão ensopado". O capão é um galo caipira de esporão, cuja a carne é meio dura, mas que cozinhado com todos os temperos locais forma um molho maravilhoso. Acompanha arroz de brejo (selvagem), verduras e uma boa farinha torrada de fabricação própria.
Não deixe de provar e comprar os doces das doceiras de lá; buriti, puro leite, murici ( meu preferido), goiaba vermelha, delícias.
Verga vai lhe levar também nos vários alambiques locais, que fazem a "pinga Assuruá", em pequenas quantidades e de forma bastante artesanal. Em cada visita ele vai tomar a sua dose, pois é "chegado". No alambique de Raulino, você além da pinga, pode tomar uma boa água de coco com canudo ecológico, feito do talo da folha do mamoeiro.
Bon voyage!
(*) Esse trabalho foi feito por solicitação do Programa "Na Carona" da TV BAHIA.
Macho e femea junto!?!?. Nem formiga com cavalo.
Zuza Sampaio

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